Manejo do pirarucu ganha protagonismo na COP 30

Coletivo do Pirarucu apresentou iniciativa do Amazonas em diferentes espaços da Conferência do Clima

Por Dafne Spolti e Talita Oliveira/OPAN

O manejo sustentável do pirarucu, iniciado há mais de 25 anos no Amazonas, segue revelando novos e consistentes resultados. A atividade tem contribuído para melhorar a qualidade de vida das famílias envolvidas, viabilizar projetos comunitários e fortalecer a proteção de ecossistemas estratégicos — fatores que colocam o manejo em posição de referência mundial. Construída de forma coletiva a partir dos territórios, essa estratégia tornou-se exemplo inspirador apresentado na COP 30.

Representantes do Coletivo do Pirarucu participaram de debates na conferência, com presença em eventos tanto na Zona Azul quanto na Zona Verde. Já na Cúpula dos Povos rumo à COP 30, realizada paralelamente ao encontro climático, o pirarucu manejado integrou o cardápio concebido como um manifesto por justiça climática, composto majoritariamente de alimentos agroecológicos.

“A participação do Coletivo do Pirarucu na COP 30 fortaleceu o diálogo multissetorial e contribuiu para o reconhecimento de experiências territoriais de manejo sustentável como soluções concretas diante da crise climática”, avalia Leonardo Kurihara, indigenista da Operação Amazônia Nativa (OPAN).

Sociobioeconomia e serviços ambientais

O debate sobre o fortalecimento econômico e ambiental do manejo do pirarucu ganhou centralidade na COP 30 durante o evento “Sociobioeconomia e Serviços Ambientais: Construindo Mercados Sustentáveis para a Amazônia”, realizado no Action on Food Hub Pavilion, na Zona Azul.  No encontro, a diretora do Departamento de Estímulo à Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Bruna De Vita, anunciou a criação de um projeto piloto de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) voltado ao manejo do pirarucu — um reconhecimento direto aos serviços ecossistêmicos gerados pelas comunidades manejadoras. 

Bruna De Vita (MMA) apresenta o projeto piloto de PSA para o manejo do pirarucu durante evento na COP 30. Foto: Dafne Spolti/OPAN

Ao explicar por que a cadeia foi escolhida para iniciar o programa, ela destacou: “A gente tem uma anuência local, tem rastreabilidade e tem esse comprometimento das comunidades na preservação e na conservação de territórios bastante amplos. Então a gente começa por essa cadeia pensando formas de fazer isso com outras”, explica. A proposta inclui pagamentos por quilo pescado e pela área protegida, garantindo inclusão mesmo em anos de baixa pesca devido às mudanças climáticas.

Além da apresentação do PSA, o evento trouxe dados atualizados sobre o impacto do manejo — que protege cerca de 15 milhões de hectares — e discutiu caminhos para ampliar a remuneração justa e qualificar mercados para produtos da sociobiodiversidade. Instituições como o Instituto Juruá e o Instituto Fronteiras para o Desenvolvimento destacaram resultados socioambientais e oportunidades para o setor.

Saiba mais: ‘Manejo do pirarucu conquista projeto piloto de Pagamento por Serviços Ambientais’

Governança comunitária e gestão transfronteiriça

O evento “Governança comunitária de sistemas aquáticos e gestão transfronteiriça diante das mudanças climáticas e como ferramenta de adaptação e mitigação”, realizado na Zona Verde, destacou o papel da organização comunitária na construção de modelos eficazes de governança para territórios que ultrapassam fronteiras nacionais. Promovido pelo Instituto Juruá em parceria com a Visón Amazónica para la Sostenibilidad Integral (VASI) e Aliança Águas Amazônicas, com apoio da WCS e da Fundação Moore, o debate evidenciou como os acordos de pesca — e, de forma especial, o manejo sustentável do pirarucu — têm fortalecido arranjos comunitários capazes de sustentar sistemas transfronteiriços de gestão dos recursos naturais.

Evento abordou o papel da organização comunitária na construção de modelos eficazes de governança, com a participação de representantes do Brasil e Peru. Foto: Antonio Miranda/OPAN

Representando o Coletivo do Pirarucu, participaram do encontro Pedro Canízio, vice presidente da Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (Femapam), e Diomir Santos, secretário da Associação dos Comunitários que Trabalham com Desenvolvimento Sustentável no Município de Jutaí (ACJ). O evento também reuniu convidados do Peru, onde ainda são escassas as ferramentas formais de ordenamento territorial, ampliando o diálogo sobre desafios comuns na gestão compartilhada dos ecossistemas amazônicos.

“As interações foram muito positivas. A Amazônia é um sistema ecológico e sociocultural extremamente rico, que se mantém conectado por seus rios. Promover esse intercâmbio de experiências é crucial para conter atividades ilegais que já se organizam para além das fronteiras formais dos países. Os acordos de pesca e o manejo do pirarucu podem abrir caminhos para um sistema pan-amazônico de governança e manejo dos recursos naturais”, avalia Hugo Costa, diretor de programas do Instituto Juruá.

Clima e Soluções Comunitárias

Na sociobioeconomia, produção e conservação andam juntas. A palavra é nova, mas a história remonta a um período de oito mil anos de sistemas agrícolas à qual se conecta o manejo sustentável de pirarucu. Durante o evento “Arapaima gigas: Clima e Soluções Comunitárias”, realizado no Círculo dos Povos, na Zona Verde da COP30, pelo Coletivo do Pirarucu, Operação Amazônia Nativa (OPAN) e Aliança Águas Amazônicas, com apoio da WCS e da Fundação Moore, a sociobioconomia foi colocada no centro do debate por sua eficácia para a proteção da floresta e o enfrentamento da crise climática a partir do trabalho comunitário realizado com o manejo de pirarucu.

Evento realizado na Zona Verde da COP30. Foto: Antonio Miranda/OPAN

“É uma longa história que vem se consolidando nessa COP, a popularização e a normalização dos termos bioeconomia e sociobioeconomia, que é um passo importante para consolidar essa compreensão e o entendimento de onde estão as raízes dessa economia”, afirma o professor e pesquisador da Indiana University, Eduardo Brondizio.

O sucesso das propostas envolve os ganhos ecológicos, sociais, de organização das comunidades e qualidade de vida das pessoas. Contudo, do ponto de vista financeiro precisam de mudanças significativas. “Estamos muito felizes, mas ainda temos muitas lutas pela frente, principalmente por causa das mudanças climáticas e também pela necessidade de mais justiça social, como a melhoria do preço do pirarucu”, afirma Diomir Santos, secretário da ACJ.

Saiba mais: ‘Sociobioeconomia para enfrentamento da crise climática’

“Manejo do pirarucu: resposta concreta à crise climática”

O conjunto de benefícios do manejo pirarucu ganhou um filme inédito com imagens do fotógrafo Adriano Gambarini, produtor do vídeo intitulado “Manejo do pirarucu: resposta concreta à crise climática”, disponível na página especial da COP30 no site do Coletivo do Pirarucu. A obra conta com relatos de manejadores e manejadoras de diferentes regiões do Amazonas e foi apresentada durante a conferência, junto com outros materiais que apoiaram a divulgação do manejo do pirarucu no evento. 

Pirarucu de manejo no cardápio da justiça climática

Criada a partir da Eco 92, a Cúpula dos Povos é um processo de mobilização popular que há mais de duas décadas acompanha grandes conferências climáticas ao redor do mundo. Em 2025, o evento aconteceu em Belém (PA), paralelamente à COP 30, reafirmando que a alimentação também é um ato político. A edição brasileira garantiu, em sua cozinha solidária, refeições compostas majoritariamente por alimentos agroecológicos, provenientes da agricultura familiar e de povos e comunidades tradicionais — um feito inédito.

Sete toneladas de pirarucu manejado por comunidades do Amazonas foram servidos na Cúpula dos Povos, que aconteceu entre os dias 12 e 16 de novembro de 2025, em Belém (PA). Foto: Rodrigo Duarte

Entre as proteínas que alimentaram mais de 10 mil participantes ao longo da Cúpula, o pirarucu de manejo sustentável ocupou lugar de destaque. “O manejo do pirarucu é referência em sustentabilidade, geração de renda e em protagonismo das bases. Então para nós foi muito importante ter esse produto que carrega tanta história, tanta tradição, organização social e aprimoramento de processos que alcança uma qualidade enorme, a nível de grandes mercados. Foi muito importante e especial ter apresentado no nosso cardápio esse produto que representa tanto”, avalia Thábitta Menta, coordenadora da Rede Maniva de Agroecologia, consultora da Articulação de Agroecologia da Amazônia e secretária operativa do GT de Sistemas Alimentares Saudáveis da Cúpula dos Povos.

Saiba mais: ‘Pirarucu de manejo no cardápio da justiça climática’



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