Pirarucu de manejo no cardápio da justiça climática

Na Cúpula dos Povos Rumo à COP 30, pirarucu de manejo sustentável feito no Amazonas compôs o cardápio-manifesto da cozinha solidária, mostrando a força produtiva dos territórios amazônicos

Por Talita Oliveira | OPAN

Criada a partir da Eco 92, a Cúpula dos Povos é um processo de mobilização popular que há mais de duas décadas acompanha grandes conferências climáticas ao redor do mundo. Em 2025, o evento aconteceu em Belém (PA), paralelamente à COP 30, reafirmando que a alimentação também é um ato político. A edição brasileira garantiu, em sua cozinha solidária, refeições compostas majoritariamente por alimentos agroecológicos, provenientes da agricultura familiar e de povos e comunidades tradicionais — um feito inédito.

“O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e por isso vimos o dever de pautar politicamente os alimentos consumidos no evento. Montamos um cardápio para mostrar a força produtiva dos territórios, da agroecologia, da agricultura familiar e do agroextrativismo”, explica Thábitta Menta, coordenadora da Rede Maniva de Agroecologia, consultora da Articulação de Agroecologia da Amazônia e secretária operativa do GT de Sistemas Alimentares Saudáveis da Cúpula dos Povos.

A cozinha solidária do evento foi coordenada por movimentos sociais como a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento Camponês Popular (MCP), o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Ao todo, 86 toneladas de alimentos servidos nos cinco dias de evento foram adquiridos por meio do maior Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da história em formato instantâneo.

Sete toneladas de pirarucu manejado por comunidades do Amazonas foram servidos na Cúpula dos Povos, que aconteceu entre os dias 12 e 16 de novembro de 2025, em Belém (PA). Foto: Rodrigo Duarte

Entre as proteínas que alimentaram mais de 10 mil participantes ao longo da Cúpula, o pirarucu de manejo sustentável ocupou lugar de destaque. Símbolo da conservação comunitária e de uma economia que valoriza os territórios e seus povos, o pescado foi fornecido pela Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), responsável pela marca coletiva Gosto da Amazônia, que levou sete toneladas de pirarucu para as refeições diárias e para o tradicional “Banquetaço” da Cúpula. O preparo dos pratos do pescado ficou a cargo de integrantes do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), reforçando o caráter político e coletivo da iniciativa.

Ao integrar o cardápio da Cúpula dos Povos, o pirarucu de manejo traduziu uma agenda que articula soberania alimentar, justiça climática e valorização dos modos de vida amazônicos. “O manejo do pirarucu é referência em sustentabilidade, geração de renda e em protagonismo das bases. Então para nós foi muito importante ter esse produto que carrega tanta história, tanta tradição, organização social e aprimoramento de processos que alcança uma qualidade enorme, a nível de grandes mercados. Foi muito importante e especial ter apresentado no nosso cardápio esse produto que representa tanto”, finaliza Thábitta.

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