Paz para viver e defender: agressão contra liderança comunitária alerta para os riscos da vigilância ambiental no rio Tapauá

Liderança de 67 anos foi agredida, ameaçada de morte e atingida por disparo de arma de fogo durante atividade de vigilância ambiental. O Coletivo do Pirarucu cobra investigação do crime e medidas urgentes e efetivas do poder público.

Uma liderança comunitária de 67 anos sofreu uma tentativa de homicídio na noite de 31 de agosto, nas proximidades da foz do rio Tapauá, no município de Tapauá (AM). O ataque aconteceu enquanto a liderança realizava atividades de vigilância ambiental em uma praia de proteção de desovas de quelônios. Segundo relatos, quatro pessoas abordaram a vítima, desferiram golpes em sua cabeça e efetuaram dois disparos de arma de fogo. Um dos tiros atingiu sua orelha. Durante a abordagem, os agressores também ameaçaram destruir as demais bases de vigilância comunitária existentes ao longo do rio Tapauá. A vítima recebeu atendimento médico e está estável. O caso foi comunicado às autoridades locais, e os suspeitos foram detidos pela Polícia de Tapauá na noite de quarta-feira (2).

A vítima sofreu ferimentos na cabeça e um tiro de raspão na orelha. Projétil foi encontrado no local.

O ataque ocorre em um contexto de crescente preocupação das comunidades indígenas e ribeirinhas com a segurança das pessoas que atuam na proteção dos territórios e na conservação do meio ambiente na região. Dias antes do crime, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) haviam realizado uma ação de fiscalização de crimes ambientais na região. Moradores suspeitam que o ataque possa ter sido uma retaliação às ações de conservação ambiental realizadas por povos indígenas e comunidades ribeirinhas ao longo do rio Tapauá.

Paz para viver e defender

O rio Tapauá e seus afluentes são fundamentais para a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, que dependem da pesca para alimentação, cultura e geração de renda. Na região, também são desenvolvidas iniciativas de manejo comunitário do pirarucu, proteção de desovas de quelônios e outras ações de proteção territorial que contribuem para a conservação dos recursos pesqueiros.

A região do rio Tapauá e seus afluentes é ocupada por comunidades ribeirinhas e indígenas de diferentes etnias, como os povos Paumari, Deni, Katukina, Jamamadi, Banawa e Jarawara, além de povos indígenas isolados e de recente contato.

A experiência acumulada pelas comunidades demonstra que a conservação dos recursos naturais está diretamente relacionada à participação e à organização dos próprios moradores. Para que essas iniciativas tenham continuidade, porém, é fundamental garantir condições de segurança, infraestrutura e presença permanente do poder público. 

“É necessária uma atuação conjunta contínua para garantir a segurança das comunidades e a continuidade dos trabalhos ambientais prestados pelos moradores, que agora estão assustados e ainda mais vulnerabilizados”, relata uma liderança comunitária que também já sofreu ameaças.

Coletivo do Pirarucu cobra providências

Diante da gravidade do ataque, o Coletivo do Pirarucu encaminhou, nesta sexta-feira (4), uma carta a autoridades das esferas estadual e federal solicitando providências urgentes para garantir a segurança das comunidades e a continuidade das ações de conservação e manejo na região. O documento alerta que a violência contra lideranças e pessoas envolvidas na vigilância comunitária coloca em risco não apenas a segurança das comunidades, mas também anos de trabalho voltados à conservação dos recursos pesqueiros e à proteção dos territórios.

O documento relembra que a preocupação com a segurança de lideranças comunitárias à frente de organizações sociais e atividades de vigilância já havia sido apresentada às mesmas autoridades em 2022. Também contextualiza a importância da pesca para os povos indígenas e comunidades ribeirinhas do rio Tapauá e seus afluentes, além de destacar o histórico de organização social em torno do manejo do pirarucu, iniciado em 2013 pelo povo Paumari e, mais recentemente, fortalecido na região pelo Acordo de Pesca da Foz do Rio Tapauá.

A preocupação imediata do Coletivo é garantir a segurança da liderança agredida, a completa investigação do crime e a proteção das atividades de manejo do pirarucu a serem implementadas pelo povo indígena Paumari e comunidades do Acordo de Pesca da Foz do rio Tapauá  entre os meses de setembro a novembro. 

“Diante desse cenário, o Coletivo reivindica investigação e responsabilização pelo ataque, proteção imediata às atividades de manejo previstas para 2026 e fortalecimento da atuação dos órgãos públicos. Entre as medidas solicitadas estão a presença efetiva da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (SEMA/AM) e do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), o apoio do Ibama, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Funai às ações de fiscalização, o reforço das forças de segurança, a melhoria da infraestrutura de vigilância e a fiscalização contínua da frota pesqueira comercial”, diz trecho do resumo executivo do documento.

A carta também solicita providências para assegurar a continuidade das atividades de manejo e fortalecer a proteção das comunidades que atuam na conservação ambiental.

Leia a íntegra da carta enviada pelo Coletivo do Pirarucu às autoridades.




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